CHACINA EM FORMOSA
Polícia aponta emboscada em chacina que matou dois casa-branquenses e indicia três
Relatório final descarta legítima defesa e aponta quatro homicídios triplamente qualificados, associação criminosa armada e histórico de ameaças
Publicado em
16/10/2026 às 14:35
Atualizado em
A Polícia Civil de Goiás concluiu o inquérito sobre a chacina que deixou quatro homens mortos em Formosa (GO), em 11 de agosto de 2026, e indiciou três investigados por quatro homicídios triplamente qualificados e associação criminosa armada. Entre as vítimas estavam os casa-branquenses André Luiz Ferreira Silva, de 41 anos, conhecido como Taroba, e Gustavo Aurélio Miguel, de 31 anos.
O relatório final, assinado em 29 de setembro pelo delegado Paulo Henrique Ferreira dos Santos, do Grupo de Investigação de Homicídios (GIH) de Formosa, apresenta uma reconstrução do crime com base em imagens de câmeras de segurança, depoimentos, interrogatórios, registros anteriores e exames periciais. Para a Polícia Civil, os quatro homens foram atraídos ao local e surpreendidos em uma emboscada, conclusão que contraria a versão de legítima defesa apresentada pelos investigados.
Foram indiciados o policial militar aposentado Matusalém Silvério da Silva, seu filho Maurício Corrêa Silvério da Silva e Rodrigo Anderson Barbosa, irmão de criação de Matusalém. Também morreram no ataque Gustavo Fernandes Graça, de 30 anos, e Luiz Antônio Rodrigues, de 58 anos. O indiciamento encerra a fase policial do inquérito, mas não representa condenação judicial.
Imagens reconstituem os 17 minutos que antecederam as mortes

Os três indiciados pela Polícia Civil de Goiás no relatório final da chacina de Formosa: Maurício Corrêa Silvério da Silva, Matusalém Silvério da Silva e Rodrigo Anderson Barbosa - Foto: Reprodução/Redes Sociais
Uma das principais bases da conclusão policial é o mapeamento do trajeto dos veículos por sistemas de monitoramento viário e câmeras de estabelecimentos comerciais. Os investigadores identificaram aproximadamente 5,79 quilômetros percorridos em cerca de 17 minutos, com registros em 12 pontos de captação.
De acordo com o documento, a Fiat Strada vermelha conduzida por Rodrigo e a Volkswagen Amarok ocupada pelas vítimas circularam em velocidade compatível com o trânsito urbano. As imagens analisadas não mostraram ultrapassagens forçadas, manobras evasivas ou acelerações bruscas que evidenciassem uma perseguição contínua.
Em um dos pontos, os veículos permaneceram lado a lado por aproximadamente 50 segundos, aguardando a abertura de um semáforo. Mais adiante, a Strada chegou a passar com cerca de 29 segundos de antecedência em relação à Amarok, por locais onde seria possível mudar de direção. Já nas proximidades da residência onde ocorreram as mortes, a Strada permaneceu parada por cerca de 20 segundos antes de converter, aguardando a aproximação da caminhonete, conforme a análise policial.
Um Volkswagen Gol conduzido por Maurício também foi identificado no percurso e se juntou aos veículos antes da chegada ao bairro Parque Lago. Para a equipe de investigação, a sequência documentada não sustenta a alegação de fuga ininterrupta de homens armados apresentada inicialmente pelos suspeitos.
O que o relatório aponta sobre os disparos
O ataque ocorreu em frente à residência de Matusalém, no bairro Parque Lago. Quando os policiais chegaram, encontraram a Amarok parada na rua, com o motor funcionando, as quatro portas abertas e numerosas perfurações na lataria e nos vidros. Duas vítimas estavam dentro do veículo e outras duas, caídas na via pública.
Uma testemunha que se encontrava nas proximidades contou ter ouvido disparos sucessivos e, durante o episódio, uma ordem para que uma pessoa descesse pelo lado do passageiro da caminhonete. Relatou que outros tiros foram ouvidos depois disso, mas não conseguiu reconhecer os atiradores. A identificação dessa pessoa foi preservada pela reportagem.
Na conclusão, o delegado sustenta que os elementos reunidos indicam tiros contra ocupantes surpreendidos no interior do veículo e, depois, contra vítimas que já estariam rendidas ou caídas. A autoridade policial atribuiu a esses fatos a caracterização de uma emboscada e de um ataque que dificultou a defesa das vítimas.
A Polícia Militar encontrou uma pistola sob o corpo de uma das pessoas mortas. O achado consta do inquérito, mas a existência da arma, isoladamente, não estabelece quem iniciou os disparos. O relatório conclui que os elementos disponíveis não sustentam a tese de legítima defesa.
Legítima defesa foi apresentada pelos suspeitos e rejeitada pela polícia
Em depoimentos, os investigados disseram que Rodrigo e Maurício teriam sido perseguidos e ameaçados por pessoas vindas de São Paulo. Matusalém afirmou que recebeu os dois na residência e reagiu porque os ocupantes da Amarok teriam iniciado os tiros. Rodrigo admitiu ter disparado com uma pistola calibre .380, enquanto Matusalém relatou o uso de uma carabina calibre 9 mm.
A polícia confrontou essa versão com as imagens do itinerário, os registros da cena, depoimentos e conteúdos divulgados pelos próprios investigados nas redes sociais. Também analisou capturas de supostas mensagens ameaçadoras, mas informou que as telas apresentadas até então não continham ameaças explícitas.
Os investigadores apontaram uma divergência específica sobre Maurício: em seu interrogatório oficial, ele não admitiu ter participado diretamente dos disparos, mas em manifestação pública posteriormente preservada no inquérito afirmou que havia reagido junto com o pai e o tio. A Polícia Civil lhe atribui participação no apoio logístico e na execução conjunta, independentemente da controvérsia sobre quais disparos teria efetuado.
A disputa financeira era mais ampla que uma única dívida
Nos primeiros dias após o crime, a motivação foi descrita como uma cobrança de aproximadamente R$ 240 mil a R$ 250 mil relacionada a um caminhão. O relatório final, no entanto, reúne diferentes negócios, dívidas, transferências de veículos e alegações de retenção de bens.
Uma das negociações investigadas envolvia um caminhão amarelo que teria sido entregue a Rodrigo e não devolvido nem pago conforme as tratativas relatadas por testemunhas. O documento descreve cobranças, propostas de troca de veículos e disputas sobre documentação e propriedade, inclusive a transferência de um caminhão para o nome de Maurício, questionada por pessoas ouvidas no inquérito.
Segundo depoimentos, havia expectativa de resolver a pendência no próprio dia 11 de agosto, mediante entrega ou acerto relacionado ao veículo. A Polícia Civil interpreta as negociações e os contatos anteriores como parte do contexto usado para atrair os quatro homens ao local onde foram mortos.
É importante distinguir as vítimas: Gustavo Fernandes Graça aparece nos depoimentos como participante direto de negociações financeiras relacionadas ao grupo de Goiás. Já o casa-branquense Gustavo Aurélio Miguel é mencionado por um familiar como acompanhante de André na viagem, para ajudar na condução de veículos.
Associação criminosa armada e relatos de cobranças violentas
A investigação sustenta que Matusalém, Rodrigo e Maurício mantinham um vínculo anterior ao dia da chacina. A tese de associação criminosa armada foi baseada em depoimentos sobre cobranças reiteradas, intimidações, ameaças com armas de fogo e negociações envolvendo veículos, equipamentos agrícolas e outros bens nas regiões de Formosa e São João d’Aliança.
Em um dos episódios relatados, uma família afirmou que uma dívida ligada à atividade agrícola passou a ser cobrada por valores superiores aos originalmente negociados. Para tentar encerrá-la, teria entregue uma Fiat Strada vermelha e um pulverizador. Ainda assim, segundo os relatos, novas cobranças teriam continuado. Testemunhas também descreveram ameaças com arma durante encontros de cobrança.
O representante da empresa ligada à dívida original afirmou à polícia que não havia autorizado Rodrigo a realizar cobranças em seu nome e que não recebeu os bens apontados como pagamento. Os depoimentos apresentam versões divergentes sobre a origem e os valores de certas obrigações, razão pela qual essas quantias não podem ser tratadas como definitivamente comprovadas.
No relatório, Rodrigo é descrito como o interlocutor mais ativo nas abordagens; Maurício, como responsável por apoio e movimentação de veículos e bens; e Matusalém, como alguém que teria utilizado sua condição de policial aposentado para reforçar a intimidação. Essas são imputações formuladas pela Polícia Civil, ainda sujeitas ao processo judicial.
As referências a extorsões, agiotagem e ameaças ajudam a fundamentar a tese de associação criminosa. É importante observar que o relatório final não individualiza essas práticas como indiciamentos autônomos adicionais contra cada um dos três.
Quatro homicídios com três qualificadoras
Os três investigados foram indiciados pelos homicídios das quatro vítimas, com três qualificadoras: motivo torpe, em razão da disputa financeira descrita no inquérito; recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa, associado à emboscada; e emprego de arma de fogo de uso restrito.
O relatório aplica o enquadramento aos quatro homicídios e considera a participação conjunta dos investigados. Isso significa que a imputação a Maurício não depende exclusivamente de demonstrar que ele tenha efetuado um disparo específico, mas também da atuação coordenada que a polícia lhe atribui.
A autoridade também indicou concurso material de crimes, uma vez que quatro pessoas morreram. Cabe ao Ministério Público avaliar a apresentação de denúncia e, em eventual processo, à Justiça apreciar as acusações e as teses de defesa.
Silenciadores motivaram indiciamentos adicionais
Nas buscas e apreensões, a Polícia Civil recolheu armas, munições e acessórios. Laudos citados no relatório confirmaram a aptidão para disparos de uma pistola 9 mm Browning e de uma carabina 9 mm Luger entregues por Matusalém.
Também foram apreendidos silenciadores nas residências de Matusalém e Rodrigo. O relatório afirma que não foi identificada autorização para a posse desses acessórios de uso restrito. Por isso, os dois receberam indiciamento adicional com base no artigo 16 do Estatuto do Desarmamento.
O relatório também registra que a pistola calibre .380 mencionada por Rodrigo não havia sido localizada até o encerramento do inquérito.
O que os depoimentos dizem sobre os moradores de Casa Branca
Os relatos de familiares de André Luiz Ferreira Silva e Gustavo Aurélio Miguel ajudam a contextualizar a viagem a Goiás sem, por si só, estabelecer a dinâmica do crime. Para preservar a privacidade das famílias, o Portal da Cidade não divulga nesta reportagem os nomes dessas pessoas nem informações íntimas constantes de seus depoimentos.
Um familiar de Gustavo Aurélio informou à polícia que ele trabalhava com montagem de equipamentos de irrigação e havia aceitado o convite de André para acompanhá-lo e ajudar a dirigir durante uma viagem relacionada a veículos e documentação. Nesse depoimento, não há atribuição a Gustavo de participação nas negociações financeiras anteriores.
Familiares de André afirmaram que ele trabalhava com compra e venda de veículos e que pretendia resolver pendências documentais e financeiras antes de voltar a Casa Branca. Também contestaram associações públicas das vítimas com facções criminosas.
Perícias pendentes e próximos passos na Justiça
Embora tenha formalizado os indiciamentos, o delegado informou que, até a assinatura do relatório, ainda estavam pendentes diligências como exames de confronto balístico, análises de projéteis relacionados à morte de André, exames de conteúdo de celulares e relatórios de sistemas de monitoramento das residências dos investigados. O inquérito também mencionava a necessidade de ouvir policiais citados nas investigações.
O relatório solicitou a manutenção das prisões preventivas dos três investigados, argumentando que a liberdade poderia comprometer a ordem pública, a produção de provas e a aplicação da lei penal. Matusalém havia sido preso em agosto; Rodrigo e Maurício foram capturados em setembro, após período foragidos. A situação processual posterior ao relatório depende de confirmação nas movimentações judiciais mais recentes.
A autoridade policial ainda determinou o encaminhamento de informações à Polícia Federal para análise de providências administrativas relacionadas a registros de armas de fogo dos envolvidos.
Assinado em 29 de setembro e publicado no sistema judicial em 30 de setembro, o relatório conclui a investigação policial, mas não encerra o caso na Justiça. A eventual apresentação de denúncia pelo Ministério Público de Goiás e os resultados das diligências complementares serão objeto de novas atualizações.
Fonte: Portal da Cidade Vargem Grande do Sul
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